A Visão de Outra Especialidade 

Análise prospectiva dos resultados clínicos no tratamento cirúrgico da espondilolistese ístmica de adultos associada à radiculopatia  

RESUMO

O resultado do tratamento cirúrgico de 33 pacientes
portadores de espondilolistese ístmica, sintomática,
com pequeno escorregamento e radiculopatia foi
prospectivamente estudado. O tratamento consistiu
na descompressão dos elementos neurais, artrodese
vertebral com enxerto autólogo e instrumentação com
parafusos pediculares. O tempo médio de seguimento
pós-operatório foi de 58,3 meses. A descompressão
associada com a artrodese póstero-lateral instrumentada
resultou em elevado índice de consolidação
(81,8% com cirurgia primária e 100% com cirurgia
secundária) e apresentou bons resultados clínicos
em 81,8% e em 87,8% dos pacientes. A recuperação
da sensibilidade foi observada em 96,4%,
da motricidade, em 90%, dos reflexos, em 50% e da
claudicação neurogênica, em 100% dos pacientes. A
análise da satisfação dos pacientes quanto ao resultado
do tratamento cirúrgico mostrou que a maioria
deles (78,8%) considerou-as bem sucedidas.
PALAVRAS-CHAVE:espondilolistese, fusão espinhal,parafusos ósseos, radiculopatia

 

 

ABSTRACT

The surgical outcomes of 33 adult patients with
symptomatic low-grade isthmic spondylolisthesis
and radiculopathy were prospectively reviewed.
Treatment consisted in decompression and
autologous posterolateral arthrodesis with pedicle
screw fixation. The mean clinical follow-up was of
53.8 months. The authors concluded that
decompression and autologous posterolateral
arthrodesis combined with instrumentation resulted
in a high fusion rate (81.8% with primary surgery
and 100% with secondary surgery) and good clinical
outcomes in 81.8% and 87.8% of the patients,
respectively. Improvement in sensory examination
was reported in 96.4%, motor radiculopathy in 90%,
reflex in 50% and neurogenic claudication in 100%
of the patients. In this study, which analyzed the
patient’s own perception of success, the vast
majority of patients (78.8%) considered their
operation to be successful.
KEY WORDS: spondylolisthesis, spinal fusion, bone screws, radiculopathy

 


INTRODUÇÃO
O termo espondilolistese foi proposto por Kilian1, em
1854, derivando-se das palavras gregas spondylos (vértebra)
e olisthesis (escorregamento). Desde então, a espondilolistese
tem sido reconhecida como um heterogêneo
grupo de lesões vertebrais que possuem, em comum,
o escorregamento anterior de uma vértebra sobre
a outra. Poucos tópicos têm motivado mais debates entre
os cirurgiões de coluna, do que qual seria a melhor
maneira para tratar, cirurgicamente, a espondilolistese
sintomática. Quando as medidas conservadoras falham
e os sintomas persistem, o tratamento cirúrgico tornase
a opção preferida (Johnson et al.2).
O objetivo deste estudo prospectivo é analisar os
resultados pós-operatórios de 33 pacientes portadores
de espondilolistese ístmica sintomática associada
à radiculopatia, que foram submetidos a tratamento
cirúrgico e avaliados por meio de parâmetros clínicos
e radiológicos.

MATERIAL E MÉTODOS

A casuística deste trabalho é constituída por 33 pacientes
portadores de espondilolistese ístmica ou do tipo II
A, conforme a classificação de Wiltse et al.3, com escorregamento
graus I a II de Meyerding4, tratados cirurgicamente.
Os dados dos pacientes foram registrados
conforme o protocolo de Defino5 e Serdeira6 modificado
pelo autor. A população de pacientes consistiu
de 13 homens e 20 mulheres, com idade variando de
18 a 60 anos (média - 41 anos). Do grupo estudado,
quatro pacientes (12,1%) eram tabagistas. Sete pacientes
(21,2%) apresentavam relação com o seguro social
ou benefícios trabalhistas, dos quais seis recebiam seguro
por invalidez temporária e um seguro social.
Com relação ao quadro clínico, a dor lombar incapacitante
era o principal sintoma, associada com a dor
irradiada para a nádega, a coxa e/ou a perna. O tempo
médio de duração dos sintomas, antes da intervenção
cirúrgica, foi de 21,6 meses, variando de seis a 72 meses.
Em todos os 33 pacientes o exame físico pré-operatório
demonstrou déficit neurológico radicular reprodutível
e correlacionável com as alterações patológicas
dos exames por imagem. O tipo de espondilolistese dos
pacientes selecionados para o estudo era ístmica ou do
tipo II-A, conforme a classificação de Wiltse et al.3 Ao
estudo radiográfico sob estresse (flexão e extensão máxima)
em decúbito lateral, 18 pacientes (54,5%) apresentavam
deslocamento translacional superior a 4mm
e/ou variação do ângulo de rotação sagital acima de 11o.
Quanto à magnitude do deslizamento vertebral, a espondilolistese
era grau I em 23 pacientes (69,7%) e grau
II em 9 (27,3%), conforme classificação de Meyerding4.
Um paciente (3,0%) mostrava espondilolistese em dois

 

níveis: grau II em L4-L5 e grau I em L5-S1. Em 16 pacientes
(48,5%) havia sinais de compressão radicular ao
estudo por imagem no nível foraminal ou na massa fibrocartilaginosa
da espondilólise. O procedimento cirúrgico
realizado envolveu a descompressão dos elementos
neurais, artrodese vertebral póstero-lateral com enxertia
autógena e instrumentação com sistema de parafusos
pediculares.
TÉCNICA CIRÚRGICA
Descompressão radicular: as lâminas ósseas vertebrais
foram ressecadas, para visualização dos elementos neurais
e auxílio na descompressão. A laminectomia realizada
foi parcial (semilaminectomia bilateral) em 28 pacientes
(84,8%) e total (procedimento de Gill et al.14)
em dois (6,1%). A revisão, com extensão da laminectomia
prévia, foi feita em três pacientes (9,1%) com história
de cirurgias anteriores para tratamento de hérnia
discal lombar. Revisaram-se os forâmens intervertebrais,
nos níveis comprometidos, com abertura e
ampliação dos mesmos (foraminotomia), em todos
os pacientes. A osteotomia das facetas articulares foi
executada, de maneira parcial, em 26 pacientes
(78,8%) e total em sete pacientes (21,2%). A massa
de fibrose da porção interarticular foi identificada e
retirada nos 33 pacientes.
A retirada do disco intervertebral, como parte do
procedimento de descompressão, foi executada em um
paciente (3,0%) que apresentava alteração degenerativa
associada e em outros três (9,1%) para a realização
da artrodese por via anterior complementar.
A técnica de artrodese utilizada no estudo foi semelhante
à descrita por Macnab e Dall15 e por Wiltse et
al.16 para a artrodese intertransversária.
A técnica cirúrgica adotada foi semelhante à descrita
por West et al.11, variando, apenas, quanto ao tipo de
instrumental utilizado e a abordagem do pedículo para
a introdução dos parafusos pediculares, conforme a técnica
de Weinstein et al.17 Realizou-se a colocação dos
parafusos, escolhendo o seu comprimento e o seu diâmetro
pela imagem radiográfica transoperatória.
O sistema de instrumentação utilizado no presente
estudo foi o desenvolvido pela empresa Raqmed® e tem
o nome comercial “AS-System”. Este sistema de fixação
vertebral pode ser aplicado em qualquer nível dorsal,
lombar e sacro, associado à fixação segmentar com
fios de aço sublaminar ou parafusos pediculares.
O implante de fixação “AS-System” é fabricado com
liga de aço inoxidável ASTM EF-138 e composto por
hastes, parafusos pediculares, grampos de fixação e
ponte estabilizadora, podendo, eventualmente, ser utilizada
aramagem com fios de aço tipo Luque13.
Todos os pacientes foram imobilizados com órtese




     

lombossacra de polipropileno, no pós-operatório, por
um período que variou de quatro a nove meses, com
média de 4,5 meses. O seguimento e os resultados clínicos
foram obtidos com auxílio de sete métodos de
avaliação: a) escala visual analógica para avaliação da
dor; b) critérios de Prolo modificado para resultados de
fusões espinhais lombares (Prolo et al.8); c) critérios de
Kim (Kim et al.9) para avaliação de resultados clínicocirúrgicos
da coluna vertebral; d) exame físico neurológico;
e) índice motor de Lucas e Ducker10; f) questionário
de West et al.11 para avaliação subjetiva, fornecida
pelo paciente, sobre o resultado da cirurgia; e g) consumo
de medicamentos.
A avaliação da artrodese vertebral sob o ponto de
vista radiológico foi feita com os mesmos critérios utilizados
por Stauffer e Coventry12. As complicações e
reoperações foram classificadas como maiores ou menores
de acordo com os critérios de Buttermann7.
O protocolo, folha para avaliação dos resultados, foi
desenvolvido com base no protocolo de Buttermann et
al.7, da Universidade de Minnesota (Twin Cities Scoliosis
e Spine Center), Estado de Minnesota, EUA. O
restante do protocolo foi adaptado de outras pesquisas,
com amostra e procedimentos semelhantes, para possibilitar
futuras comparações e avaliação destes resultados
prospectivos.
O protocolo permitiu o registro de dados quanto à
identificação do paciente, situação clínica e estado pré
e pós-operatório em relação a sintomas, exame físico
neurológico, consumo de medicamentos, situação laborativa,
diagnóstico, tratamentos, complicações, reoperações
e resultados tanto objetivos como subjetivos.
Foram incluídos no estudo somente os pacientes operados
pelo autor, com a mesma técnica cirúrgica descompressiva,
com idêntico sistema de fixação vertebral
e artrodese com enxerto autólogo. Para participar do
estudo os pacientes deveriam atender aos seis critérios
abaixo discriminados:
- Padrão da dor: somente pacientes com dor lombar
associada a ciatalgia;
- Tipo da espondilolistese e percentual de deslocamento
translacional: pacientes portadores de espondilolistese
ístmica, subtipo II-A (Wiltse et al.3),
com até 50% de deslocamento translacional, tipos I
e II de Meyerding4;
- Lesão neurológica: somente pacientes com sinais
clínicos de irritação ou comprometimento radicular sob
o ponto de vista da anamnese e, no mínimo, com duas
das seguintes alterações ao exame físico neurológico:
reflexos, sinais, sensibilidade, motricidade, alterações
tróficas musculares da perna ou coxa e marcha. Igualmente,
constituiu critério de inclusão a presença de
apenas uma das alterações acima descritas no exame

 

físico, associada à história de claudicação neurogênica
intermitente;
- Tratamento pré-operatório: todos os pacientes se submeteram,
previamente, às medidas conservadoras para alívio
dos sintomas por um prazo mínimo de quatro meses
no pré-operatório, incluindo o tratamento fisioterápico;
- Documentação radiológica e imagens: exame radiológico
funcional da coluna lombossacra em flexoextensão
(decúbito lateral) e séries de cinco incidências,
bem como exames de imagens para diagnóstico da
etiologia da radiculopatia: mielografia, tomografia computadorizada
ou ressonância nuclear magnética. Foram
considerados apenas os pacientes com documentação
radiográfica e imagens completas;
- Tempo de seguimento: permaneceram no estudo
apenas os pacientes com seguimento mínimo de 18
meses de pós-operatório no momento da avaliação clínico-
radiográfica final. Todos os pacientes retornaram
para a reavaliação final, não tendo nenhum deles sido
entrevistado por telefone;
- Critérios para indicação de tratamento cirúrgico:
todos os pacientes apresentavam dor lombar, mas o tratamento
cirúrgico não foi indicado com o objetivo isolado
do seu alívio, e sim devido à presença de ciatalgia
típica associada à lesão radicular. A claudicação neurogênica
intermitente também foi fator de indicação para
o tratamento cirúrgico.
Foram excluídos do estudo os pacientes com idade
inferior a 18 anos e superior a 60 anos, pacientes portadores
de doença óssea metabólica (osteoporose), comorbidade,
instabilidade emocional e outros tipos de
espondilolistese. Foram também excluídos do estudo os
pacientes portadores de espondilolistese ístmica com dor
lombar sem ciatalgia, os pacientes com radiculopatia
de outras etiologias e os tratados com outras técnicas
cirúrgicas e de fixação.
Os pacientes foram avaliados nos 12 primeiros meses
de seguimento pós-operatório a cada 30 dias, sob o
ponto de vista clínico ortopédico e neurológico, com o
objetivo de detectar-se alterações de sensibilidade, motricidade,
reflexos, marcha, consumo de medicamentos
e radiológicas, para avaliação da artrodese. O acompanhamento
clínico-radiológico após os 12 primeiros
meses foi semestral, passando a anual após o 3o ano
pós-operatório.
Os resultados foram analisados por meio da estatística
descritiva (distribuição das freqüências absolutas e relativas
(%), médias, medianas, desvios-padrão, valores mínimos
e máximos, gráficos, etc. – e estatística inferencial –
(teste t de Student, teste qui-quadrado, teste não-paramétrico
de McNemar e teste exato de Fisher). Como critério
de aceitação ou rejeição das hipóteses testadas foi adotado
o nível de significância de 5% (p=0,05).

 

   
     

RESULTADOS
Todos os pacientes apresentavam sinais clínicos de
alteração das funções neurológicas, tendo ocorrido
melhora considerável, com exceção dos reflexos, que
apresentaram melhora em 50% dos pacientes. As alterações
neurológicas pré e pós-operatórias estão
descritas na Tabela 1.

 

parativo dos estados pré e pós-operatórios na avaliação
final do seguimento. Os resultados do presente
estudo revelaram uma melhora na escala EVAD para
dor lombar: média de 7,0 antes da cirurgia para 2,4
após a mesma. Da mesma forma, estes resultados revelaram
uma melhora na escala EVAD para a ciatalgia:
média de 6,8 antes da cirurgia para aproximadamente
2,0 após a mesma.
Com relação à artrodese vertebral, e de acordo
com os critérios de Stauffer e Coventry12, foi observada
a porcentagem de 81,8% (27 dos 33 pacientes)
com a realização da cirurgia primária. A consolidação
da artrodese por meio da cirurgia secundária
nos pacientes com pseudo-artrose (6 de 33) foi observada
durante os seis meses de seguimento. A porcentagem
de consolidação da artrodese vertebral
após a cirurgia secundária foi de 100% .
As complicações estão ilustradas na Tabela 2, tendo
sido observadas 13 complicações em nove pacientes
(27,3%).
Foi necessária a reoperação em oito pacientes
(24,2%) por indicações maiores, sendo cinco por via
posterior e três por via anterior. As causas e as indicações
maiores para reoperações estão relatadas na
Tabela 3.


 

A redução do uso de medicamentos analgésicos,
na avaliação final do seguimento pós-operatório, foi
observada na maioria dos pacientes e está ilustrada
na Tabela 4.
Cinco pacientes (83,3%) dos seis pertencentes ao
subgrupo portador de pseudo-artrose demonstraram
decréscimo no uso de medicamentos analgésicos somente
após suas cirurgias secundárias. A avaliação
por meio dos critérios de Prolo et al. (1986)8 estão
apresentados na Tabela 5.
Na avaliação final do seguimento, segundo esta metodologia,
o sucesso clínico foi constatado em 29 pacientes
(87,9%), sendo que 22 deles (66,7%) alcançaram
resultado excelente e sete (21,2%), resultado bom. Insucesso
clínico foi observado em quatro pacientes
(12,1%): três (9,1%) permaneceram inalterados e um
paciente (3,0%) apresentou piora.


 

A avaliação final, conforme os critérios para resultados
clínicos pós-operatórios de Kim et al.9, mostrou
que resultado excelente e bom foi alcançado em 27 pacientes
(81,8%), e insucesso clínico em seis (18,2%),
conforme Tabela 6.
Os resultados subjetivos (opinião do paciente) e as respostas
ao questionário de West et al.11, modificado por este
autor, no que tange à situação pós-operatória quanto à dor,

 

capacidade laborativa e se recomendariam ou não sua cirurgia
para alguém com mesmo diagnóstico e quadro clínico,
estão apresentados na Tabela 7.
DISCUSSÃO
Estima-se que 10% a 20% dos pacientes adultos com
espondilolistese sintomática persistirão com dor, apesar
das medidas de tratamento conservador (Bailey18;
Fredrickson et al.19).
Segundo Bradford e Gotfried20 o objetivo da cirurgia
é prevenir déficit, permitir ou estimular a recuperação
de déficit preexistente, aliviar a dor, estabilizar
movimentos anormais e prevenir a progressão
do escorregamento.
Os poucos trabalhos existentes sobre o tratamento
de adultos com espondilolistese ístmica utilizando
fusão espinhal póstero-lateral, com ou sem descompressão,
incluíram pacientes com grupos mistos
em termos de magnitude do escorregamento, síndromes
clínicas e sistemas de instrumentação (Haraldsson
e Willner21; Johnson et al.2; Hanley e Levy22).
Diversos trabalhos, analisando os resultados do tratamento
cirúrgico da espondilolistese, podem ser encontrados
na literatura médica. Muitos deles, já anteriormente
referenciados, apresentam, porém, grande variabilidade
quanto a materiais e métodos, dificultando
a análise e a comparação dos resultados.
O objetivo desses trabalhos volta-se para os resultados
cirúrgicos: índices de fusão espinhal, técnicas
de instrumentação e descompressão e complicações,
deixando de valorizar, adequadamente, os
aspectos clínicos quanto ao alívio da dor e a recuperação
neurológica e laborativa bem como a opinião
dos pacientes sobre os resultados subjetivos de suas
cirurgias.
Os aspectos acima citados determinam algum viés
ou erro sistemático em muitos dos estudos, dificultando
a reprodutibilidade e validade dos mesmos. O
objetivo, a metodologia e o tipo de investigação desenvolvido
na presente pesquisa têm a intenção de
atenuar os fatores de confusão e facilitar a reprodutibilidade
dos resultados.
A descrição dos sinais e sintomas de comprometimento
neurológico radicular no pré-operatório e
respectiva recuperação pós-operatória, em geral, não
é valorizada ou adequadamente descrita nos trabalhos
semelhantes. Na presente pesquisa, tal enfoque
foi uma das preocupações do autor, uma vez que o
déficit neurológico é um dos fatores de indicação do
tratamento cirúrgico.
Poucas publicações (Kim et al.9; McGuire e Amundson23;
Thomsen et al.24) relataram os resultados clíni

 

cos da fusão póstero-lateral com instrumentação. Tais
estudos mostraram que a instrumentação não alterou
significativamente os índices de fusão espinhal.
Outros dois estudos, porém, desenvolvidos com a
mesma finalidade, exibiram resultados opostos, ou
seja, índices de fusão superiores nos casos onde a
instrumentação foi adicionada (White e Panjabi25;
Jacobs et al.26).
Apesar de Gibson et al.27 terem concluído que a
fusão instrumentada pode estar associada a altos índices
de fusão e de complicações, optou-se por esta
modalidade de tratamento porque 18 dos 33 pacientes
(54,5%) apresentavam instabilidade angular e ou
translacional; em 11 dos 33 (33,3%), a espondilolistese
envolvia o nível L4-L5, considerada uma lesão
com potencial de progressão, e, por último, porque
todos os pacientes submeteram-se a procedimento
descompressivo amplo.
O papel da descompressão no tratamento da espondilolistese
ístmica também é controverso. Gill et
al.14 recomendaram ressecção do arco neural e descompressão
radicular sem fusão para pacientes com
espondilolistese ístmica. Eles relataram índices de
sucesso em 11 dos 14 pacientes tratados (78%). Jackson
et al.28 e Peek et al.29 relataram bom resultado
com fusão isolada, mesmo na presença de ciatalgia.
Rombold30, Johnson et al.2, Hanley e Levy22 e Kim et
al.9 combinaram descompressão e fusão em pacientes
com dor radicular.
Na presente série, foi realizada descompressão associada
à fusão espinhal em todos os pacientes. Considera-se
que a descompressão está indicada quando o comprometimento
da raiz nervosa resulta em radiculopatia.
No presente estudo, foram alcançados 81,8% de
resultados clínicos satisfatórios com descompressão
e fusão póstero-lateral instrumentada pelo critério
de Kim et al.9 Estes resultados são melhores que os
encontrados por Haraldsson e Willner21, por Hanley
e Levy22 e por West et al.11, respectivamente, de 57%,
60% e 43%, similares aos de Jackson et al.28 e de
Kim et al.9, por sua vez, de 83% e 85%, e inferiores
aos alcançados por Ricciardi et al.31, de 88%.
O índice de insucesso clínico de 21% informado por
West et al.11 no subgrupo com espondilolistese (n=14)
foi semelhante aos 18% encontrados pelo autor deste
trabalho, com amostra e metodologia semelhantes.
Uma comparação estreita dos resultados é difícil
devido às diferentes metodologias de avaliação, aos
distintos procedimentos cirúrgicos adotados, aos tipos
de enxerto ósseo e à extensão da descompressão.
A comparação dos resultados, mesmo em um estudo
simples, pode apresentar um viés pela variedade de

 

sistemas de fixação interna utilizados.
Na bibliografia consultada não foram encontrados
trabalhos que envolvessem o tratamento cirúrgico
de pacientes com espondilolistese ístmica e que,
especificamente, tivessem dado ênfase às manifestações
do comprometimento radicular ao exame neurológico
e respectiva recuperação pós-operatória.
Uma comparação adequada com trabalhos indexados
de outros autores foi dificultada pela escassez
de informações quanto a este aspecto de dano neurológico
radicular e respectivas alterações de força,
sensibilidade e reflexos.
Os resultados de recuperação neurológica pósoperatória
desta pesquisa são superiores aos citados
por Schnee et al.32 e Suk et al.33. No entanto, são
inferiores aos publicados por Vaccaro et al.34 e superponíveis
aos publicados previamente pelo autor
(Zardo35).
O uso da EVAD na presente pesquisa permitiu a
quantificação e a comparação dos resultados com relatos
prévios que utilizaram esta mesma escala. Melhora
estatisticamente significativa foi encontrada
no tocante a dor lombar após a cirurgia, mensurada
pela EVAD. Resultados semelhantes foram registrados
no que se refere a ciatalgia com o uso da mesma
escala. Para estes dois grupos de síndrome dolorosa
as graduações de dor apresentaram grande variabilidade
após a cirurgia e na avaliação ao fim do seguimento
dos pacientes.
As diferenças nas médias da EVAD dos estados
pré para pós-operatórios, indicados por West et al.11,
Vaccaro et al.34, Buttermann et al.7, são bastante
aproximadas as do presente estudo em que o autor
verificou índices de dor lombar de 7,0 no pré-operatório,
e 2,4 no pós-operatório e de 6,8 e 2,0 para
ciatalgia no pré e pós-operatório respectivamente.
A redução no uso de medicamentos é outro fator
indicativo de melhora do quadro álgico para pacientes
submetidos à fusão espinhal. O resultado do
presente estudo, no qual 81,8% dos pacientes suspenderam
totalmente o uso de analgésicos, 15,2%
passaram a consumir menos e apenas 3% permaneceram
utilizando a mesma quantidade de antiálgicos,
foi superior aos relatados por West et al.11, por
Ricciardi et al.31 e por Buttermann et al.7, para este
subgrupo de pacientes. Em relação aos trabalhos com
amostra semelhante, na maioria dos casos, não foi
possível comparar diretamente os índices de consumo
de medicamentos com os dos outros autores, devido
a grandes diferenças metodológicas.
No trabalho de Lehmann et al.36, 95% dos pacientes
acreditavam que o procedimento cirúrgico ha

 


 

via sido útil para alívio da dor e 92% se submeteriam
ao mesmo procedimento em uma situação similar
à do pré-operatório. Esses dados percentuais foram
superiores aos da presente pesquisa e aos documentados
na série de West et al.11, onde 90% dos
pacientes (55 de 61) consideraram a cirurgia de sucesso.
No trabalho de Buttermann et al.7, 84% dos
pacientes confirmaram o sucesso de suas cirurgias,
86% as repetiriam em situação similar e 86% as recomendariam.
Tais dados são semelhantes aos da
presente pesquisa cujos percentuais de respostas foram,
respectivamente, 81,8%, 78,8% e 78,8%.
CONCLUSÕES
A estratégia terapêutica adotada permitiu boa recuperação
neurológica radicular quanto a motricidade (90%) dos pacientes,
sensibilidade (96,4%), reflexos (50%) bem como

 

retorno ao trabalho em condições semelhantes à do período
pré-mórbido (81,8%). Igualmente, possibilitou alto índice
de resultados clínicos satisfatórios – excelentes e bons
– conforme metodologias de Kim et al.9 (81,8%) e Prolo et
al.8 (87,9%).
Houve relação direta entre a pseudo-artrose e os
resultados clínicos não satisfatórios: persistência da
dor lombar e ciatalgia no pós-operatório. A maioria
dos pacientes com diagnóstico preciso de espondilolistese
ístmica sintomática e pequeno deslocamento
translacional (graus I e II) associada à radiculopatia,
sem comorbidades ou contra-indicações psicossociais,
e aqueles para os quais o tratamento conservador
apropriado não teve sucesso, se beneficiaram
com a cirurgia de descompressão e artrodese vertebral
instrumentada.

 


 

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